Storytelling LabsComo as histórias são construídas, por que funcionam, e como aplicar isso em marca, produto e vendas.
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04 de outubro de 2026

Como a Coca-Cola tirou o próprio nome do rótulo e colocou o seu no lugar

Como a Coca-Cola tirou o próprio nome do rótulo e colocou o seu no lugar

Em 2011, a Coca-Cola da Austrália imprimiu nos rótulos das garrafas a frase “Share a Coke with” seguida de um nome próprio, no espaço onde ficava a logomarca. Foram 150 nomes, os mais comuns do país, espalhados por milhões de garrafas.

A ideia saiu da Ogilvy australiana, e a campanha que no Brasil ganhou o nome de Compartilhe uma Coca-Cola virou um dos casos mais estudados de storytelling de marca em embalagem, justamente porque a história não aparece em lugar nenhum da garrafa.

O problema que a campanha precisava resolver

O ponto de partida era de consumo. Segundo a própria Ogilvy, metade dos adolescentes e jovens adultos australianos não tinha tomado uma Coca-Cola no mês anterior. Pra uma marca que depende de hábito, uma geração inteira fora do hábito é o problema mais caro que existe, e nenhuma lista de atributos do produto resolveria isso, porque todo mundo já sabia o gosto que a Coca-Cola tem.

A saída foi mudar quem protagoniza a embalagem. Até ali, o rótulo contava a história da marca: logotipo centenário, tipografia reconhecível de longe. Na campanha, um dos lados passou a falar de uma pessoa específica. A tipografia dos nomes, desenhada por Ian Brignell, acompanha o desenho do logo, e por isso o nome de um desconhecido parece pertencer à garrafa.

Onde está a história, se ela não está no rótulo

A garrafa com um nome impresso é o começo de uma cena que o comprador termina. Quem acha “Ana” na gôndola lembra de uma Ana específica, compra, entrega, e a entrega vira o momento da história. A marca fornece o objeto e o gatilho. O enredo, com personagem e desfecho, fica por conta de quem compra.

Essa é a mecânica central do caso. A maior parte do storytelling de marca conta uma história pronta pro público assistir. Aqui, a Coca-Cola desenhou uma peça que só se completa quando alguém age, do mesmo jeito que uma marca gruda quando existe uma cena associada a ela, com a diferença de que a cena é do cliente e muda a cada garrafa.

O verbo do slogan também trabalha. “Compartilhe” pede um segundo personagem. Ninguém compartilha sozinho, então cada garrafa com nome embute uma relação entre duas pessoas, e é essa relação que as pessoas fotografavam e postavam, levando a garrafa pra fora da gôndola e pra dentro do feed de quem nunca tinha visto o anúncio.

Os números, e o que dá pra afirmar com segurança

Na Austrália, a Ogilvy estima que a campanha aumentou em 4% a participação da Coca-Cola na categoria e em 7% o consumo entre jovens adultos. A peça ganhou prêmios em Cannes, incluindo a categoria de Efetividade Criativa, que avalia resultado de negócio e não só criação. Os percentuais vêm da agência que fez a campanha, e isso vale registrar antes de repetir os números como medição independente.

Nos Estados Unidos, a campanha chegou em 2014. Segundo os números reunidos no verbete da campanha na Wikipedia, as vendas subiram pouco mais de 2%, número pequeno à primeira vista, mas que interrompeu mais de uma década de queda no consumo do refrigerante no país. Em 2015 a lista americana foi ampliada pra mil nomes, com apelidos genéricos como “bro” e “sidekick” pra quem não achava o próprio nome.

A campanha rodou em mais de 80 países. No Brasil, voltou em abril de 2025, conduzida pela VML dentro do grupo WPP, com mais de 600 nomes e expressões de internet como “grupinho” impressas em latas e garrafas.

O que um negócio pequeno consegue tirar daqui

Nenhum negócio pequeno imprime milhões de rótulos, mas o mecanismo cabe em qualquer escala. Ele pede duas decisões. A primeira é deixar um espaço vazio na peça pra outra pessoa preencher: um nome, uma data, uma lembrança. A segunda é dar um motivo pra essa peça passar de uma mão pra outra, porque a entrega é o momento em que a história acontece.

Um exemplo em escala de bairro: uma confeitaria que escreve na tampa da caixa o nome de quem vai receber o bolo, e não de quem comprou, está usando a mesma lógica. Quem compra vira narrador, quem recebe vira personagem, e a foto da tampa circula no grupo da família sem que a confeitaria peça nada.

O cuidado está no gesto. Personalização sem entrega vira só um produto com o nome do dono, e aí a cena não existe. O motor do caso é o compartilhamento, e o nome no rótulo é só a ferramenta que dispara esse gesto.

O furo da ideia, e como a campanha tapou

Uma lista de nomes sempre deixa gente de fora. Quem tem nome raro procurava a própria garrafa na gôndola e não achava, e a campanha que prometia falar com cada pessoa passava a lembrar essa pessoa de que ela não estava na lista. É um risco que qualquer ação de personalização em escala carrega.

A resposta veio em camadas. A lista americana cresceu pra mil nomes em 2015 e ganhou apelidos genéricos, que servem pra qualquer pessoa ocupando um papel na vida de alguém, como o parceiro, o melhor amigo ou o irmão.

Em 2016 os nomes deram lugar a trechos de letras de música, e em 2017 a destinos de férias. Cada variação manteve a mecânica original, uma garrafa que pede um segundo personagem, e trocou só o gatilho.

Pra um negócio pequeno, a lição do furo é prática. Antes de lançar qualquer peça personalizada, pergunte quem vai procurar e não vai se achar, e tenha uma versão pra essa pessoa.

Onde comparar

Pra ver como uma marca sustenta um mesmo mecanismo por décadas, vale comparar com a forma como a Havaianas contou a mesma história por 30 anos, e com o mecanismo geral de storytelling que os dois casos aplicam de formas opostas.

Fontes consultadas

produto Storytelling Labs

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